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  • Foto do escritorDuarte Dionísio

Serrabulho – “Porntugal (Portuguese Vagitarian Gastronomy)”

Atualizado: 28 de jan. de 2021

Grind folclórico

Serrabulho – “Porntugal (Portuguese Vagitarian Gastronomy)”

Lançamento: 2018

Sonoridade: Grindcore, Death Metal, Folk Metal

Editora: Rotten Roll Rex, RRR115

Produção: Guilhermino Martins

Capa: Marta Peneda

Formato: CD


Lista de músicas:

1 - She Drinks Milk

2 - Ela Fez-me um Grão de Bico

3 - Fecal Torpedo

4 - Pito sem Penas

5 - Os Tintins do Tintin

6 - BBC Wild Life

7 - Cagalhão com Ovo a Cavalo

8 - Gelado de Caganetas

9 - Dingleberry Ice Cream

10 - Tofu au Cu

11 - Tomate Pelado


Sempre senti algum desagrado por projetos musicais humorísticos, que de forma gratuita, propalam um humor brejeiro ou erótico. O humor tem o seu lugar, mas tem de ser feito com qualidade e propósito. Os casos de Ena Pá 2000, Cebola Mol, como exemplos, não me atraem de todo. Por isso, ao ouvir “Porntugal” dos Serrabulho, fi-lo com apreensão. Não estou a estabelecer comparações entre estes e os outros, apenas pretendo colocar a análise em perspetiva. Os Serrabulho são, acima de tudo, uma banda dentro do género Heavy Metal, ou mais especificamente praticantes de uma sonoridade Grindcore, com bases Death Metal. Ou talvez nada disto! É que a inclusão de instrumentos como a gaita-de-foles, alguma percussão tradicional, adufe, também algumas melodias, que lembram música ligeira e de baile e a forma como os arranjos influem no resultado final, dá a sensação que a música produzida pela banda é um cruzamento de estilos pouco consentâneos. Já para não falar do início e final do álbum com batidas Techno. É por isso mesmo que, depois de ouvir “Porntugal”, encontrei motivos de interesse. Logo à partida, a Portugalidade espalhada pela componente gráfica, que é transportada para o interior, mais concretamente as líricas. Estas refletem, aqui e ali, a origem da banda, a profundidade do interior Norte de Portugal – Alto Douro e Trás-os-Montes. A colagem de sons samplados e gravações de vozes representativas de uma certa interioridade e ruralidade, adicionam um toque especial. A verdade é que no mundo agrícola de um Portugal genuíno e por vezes esquecido existe todo um ambiente brejeiro. Este chega a ser javardo, pornográfico e “avacalhado” com utilização de terminologia em calão. Talvez por isso mesmo, artistas de música ligeira tenham tanto sucesso nas festas populares por esse país fora. Sendo disso bons exemplos Quim Barreiros ou Rosinha. Neste contexto, os Serrabulho são uma banda de festa, apesar da brutalidade do som. Tudo é feito com humor, mas com sentido de estilo, numa conjugação muito original de música extrema oriunda de outros países, com o jeito Português de brincar com assuntos reais. Gostaria de ver os Serrabulho a atuar no largo da igreja, depois de celebrada a missa.


Um ponto a reter é a qualidade de produção, capaz de evidenciar a capacidade técnica dos músicos, apesar da normal densidade do género. Note-se o som de bateria, que não esconde os detalhes, com pratos bem audíveis na mistura, tarola marcante, mesmo em blasbeat, o que enaltece o trabalho diversificado do Ivan. Guilhermino executa com destreza um baixo possante, que não se deixa mergulhar no pantâno sonoro, encontrando espaço para acordes dilacerantes. A guitarra do Paulo propõe uma panóplia de riffs, entre o agressivo e o brincalhão, sempre com tensão e saturação que baste. A voz!… Não sei se o Carlos gravou todas as vozes ou se convidou algum porco com talento para partilhar a gravação. Também não sei se em algumas músicas, os versos estão a ser vociferados, ou o vocalista limita-se a grunhir e roncar. Até neste aspeto, as características do género dominante são levadas ao extremo. “Porntugal” é um álbum repleto de pequenos detalhes para explorar nas curvas e contracurvas de um humor narrativo, com uma sonoridade extrema e latejante. “She Drinks Milk” com a candura de uma voz de desenho animado pelo meio da devastação sonora; ou “Ela Fez-me um Grão de Bico”, em que aprendemos como cozinhar grão e aproveitamos um momento de baile, enquanto somos dizimados pelo riff arrastado são apenas os temas iniciais. Entramos pelo meio da aldeia ao som de galinhas e de um amola-tesouras, enquanto somos arrastados pelo Folk Metal para uma cavalgada sonora com a Belarmina. Há flatulência e descargas fecais e até visitas de emigrantes franceses, ao som de uma entrada tipo Salada de Frutas, que descamba num Black Metal do Douro em “Os Tintins do Tintin”. Pratos típicos servidos com ovo a cavalo (“Cagalhão com Ovo a Cavalo”), como sobremesa gelados em Mirandês e em Inglês à escolha do freguês. “Tomate Pelado” deixa-nos sem folego e sem pelos com uma mistura entre a brutalidade do Death Metal e o assomo ao Power Metal do grito “Tomaaaaatteeeee”. Os Serrabulho cozinham um prato de Metal com muitos condimentos Folk, Grind, Agro, Death, Porn, Tuga… Enfim! “Porntugal” é um álbum de música travessa para escrutinar por filósofos, antropólogos ou, quem sabe, sexólogos.


Destaco o conjunto líricas/desenhos, aquelas da autoria de Susana Catalão e estes de Marta Peneda, um dupla de mulheres com “tomates” (pelados). Espero sinceramente que esteja tudo bem com o Milou, com o burro e com a senisga da Belarmina.


Foto: André Henriques


Músicos (que gravaram o álbum)

Paulo Ventura - Guitarras e vozes

Carlos Guerra - Voz e samples

Guilhermino Martins - Baixo, percussão, samples e vozes

Ivan Saraiva - Bateria



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